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quinta-feira, agosto 12, 2004

O fim 


Decretamos aqui o fim oficial dos Net Pulhas.
Obrigado a todos os que nos leram.
Podem continuar a ler os disparates do net pulha nos Alcabrozes.
Quanto à MF cabe a vós descobri-la algures na blogosfera, ou então não!
Até sempre!

o net pulha e MF

segunda-feira, julho 12, 2004

Suspensão de actividade 


Por motivos mais do que óbvios, os Net Pulhas suspendem a sua actividade até que passe o temporal!
Até breve!

o net pulha e MF

sábado, julho 10, 2004

Ler sinais 

Aprendi com a vida a ler sinais. Os mais subtis. Aprendi com a vida a antecipar-me, a pressentir. Aprendi com a vida a desmistificar, a servir-me da ironia, do humor amerelo e negro para continuar a traçar o meu caminho. Aprendi com a vida a reforçar as minhas defesas, a erguer alto a cabeça para que as lágrimas não corram profusamente. Aprendi com a vida a esconder a dor para que os outros não se aproveitem dela. Aprendi com a vida a servir-me das palavras como refúgio, aprendi com a vida que não vale a pena esperarmos que os outros entendam os nossos sinais porque são subtis. Os mais subtis. Fui Josefina, olhos de Maria onde se lia como num jornal, fui aquela que chegou a casa e se encolheu no sofá, ensaiei um adeus, fiz de MF, fiz sei lá já do quê! Aprendi com a vida a desistir quando já não vale mais a pena lutar. Chorei aqui a morte e a ausência do meu pai, falei da minha filha (aquela rapariga que comigo partilha a casa e que me roubou o Rafael). Só não aprendi a ter paciência para fazer os linques destas referências aos posts a que dizem respeito. Agora, estou cansada. A fonte das palavras secou. Já não há mais histórias que vos conte. Já não há mais MF pela qual valha a pena continuar. Deixo com saudades os Net Pulhas, refúgio de muitas horas, expectativa de outras. O meu colega de blog que me perdoe mas não consigo continuar. Ele que com o tempo também aprendeu a ler sinais. A todos os que me leram um obrigada muito especial.
MF

quinta-feira, julho 08, 2004

Ensaio do adeus 

A vida é um ensaio do adeus, uma preparação constante para a partida. Não vale a pena munirmo-nos de nada nem tão pouco nos despojarmos de tudo, porque é indiferente. É indiferente o rumo, a estadia. Na tentativa de ludibriarmos esta verdade, encontramos sentido na razoabilidade de condutas, fé na causa-efeito das acções e da salvação. Por vezes, a medo da vida, alguns encontram refúgio na morte, invertendo a lógica das premissas porque é a vida o único refúgio da morte. Esta é o sentido por si só e em si só.
Aqueles que assim interiorizaram, vivem sem regras ou no excesso da sua estatuição e do seu cumprimento, ou por as acharem absurdas e irrelevantes ou por, contrariamente, serem a única referência palpável que lhes resta.
A vida é um ensaio do adeus, um ensaio para o desconhecido ou, mais fria e agnosticamente, para o nada. E do nada fazemos Deus, e pressentimo-Lo e adoramo-Lo quantas vezes a medo e por medo. A vida é antes um sinal de Deus. É o único "todo" que conhecemos e é desse "todo" e nesse "todo" que deveremos encontrar e perceber a Sua presença. Deverá ser por isso a vida um ensaio de alegria e não de depressão. Deverá ser por isso a nossa existência pautada no eterno reconhecimento do que nos foi dado e não do que tememos a despeito de, sem qualquer aviso, nos passar a vida tão de repente sem que logremos a certeza do reencontro divino.
MF

Ter-te 

Entre alegria e medo,
ponte e desfiladeiro
do teu corpo e ausência,
deito-me, ao fundo,
pedindo, às aguas que me levem,
ao fim, último.
No arraste das areias,
entre algas, oxigénio e sereias,
encontro-me deitada sobre ti,
perguntando porque morri
se quiz nesse espaço, breve,
encontrar toda a razão
da vida e não da morte,
se quiz nesse intervalo,
segurar-me à ponte de que me despenho.
MF

It's only rock'n'roll... 

...but I like it!

Velvet Revolver
Coliseu dos Recreios, 12 de Setembro de 2004.

o net pulha

terça-feira, julho 06, 2004

Publicidade 



Já conhece a Associação Portuguesa dos Amigos dos Caminhos-de-ferro?

o net pulha

sexta-feira, julho 02, 2004

Especimen 



Apresento-vos o politicus interruptus!

o net pulha

Viva Purt'gal, viva!!! 

- O que é que já fizeste pelo teu país?, pensei perguntar ontem ao meu vizinho do R/C Direito.
Suspeito que estas seriam as respostas:
- Tenho uma bandeira à janela... mas não costumo votar!
- E também tenho uma no vidro do carro... mas fujo às minhas obrigações fiscais!
- E comprei uma camisola da selecção... mas continuo a escarrar para o passeio!
- E grito Purt'gal sempre que a selecção ganha... mas não participo nem protesto em questões realmente importantes!
- E grito pelo Miguel, pelo Costinha, pelo Jorge Andrade, pelo Deco... mas acho que os cabrões dos pretos e dos brasileiros deveriam era ir para a terra deles!

o net pulha

quinta-feira, julho 01, 2004

Casa de Parênteses 

Havia dias, talvez meses que colocara a placa na janela - Vende-se - e ninguém mesmo ninguém se acercara para perguntas. Resolvera olhar para a casa de fora. Saíra para o quintal, afastara-se como quem passa ao acaso e olhara. Perdida de detalhes e realces esmorecia de encantos ou virtudes. Telhas vulgares, janelas discretas, tão discretas que se diria não rasgarem para o mundo o interior, porta vulgar, batente rouco, alma de ninguém que convidasse à demora.
Naquela casa fizera pernoitas e refeições. Lavara roupa e estendera ao sol e vento que calhasse. Passara tempos indefinidos de repetição e até amara num ou outro recanto. Pouca lembrança se colara nas paredes, pouco viço de cor e singularidade lhe dera identidade, carisma, conforto de lar. Naquela casa estivera sempre de passagem, de intervalo entre o ir e o ficar. Era pois uma casa de parênteses.
Estava à venda e ninguém o queria perceber.
Agora que a placa anunciava o ponto final, nada ficara entre comas e o nada empalidecera à indiferença aquela casa. No quarto de desarrumos encontrou empilhadas lembranças de férias, invernos e Natais. Objectos à espera de tempo que lhes desse destino, de mãos que lhes pegassem e revissem. Nunca chegara esse tempo de demora, nem aos quadros, nem aos tules indianos, nem às colchas e tapetes marroquinos.
Perdeu horas ganhando o tempo da memória. Ajeitou cantos de fotografias e molduras, espelhos de profundidade e luz, cristais de licores de amêndoa e maracujá. Chapéus de palha fina e cestarias, espanta espíritos nas portadas, velas e candelabros e o serviço que descobria em caixotes e caixinhas.
Ao fim da tarde, quase à dormida do sol, pendurou a rede no telheiro. Naquela casa interrompera-se na espera do dia breve que nunca chegara, na vida que por estrear lhe passara indiferente ao reparo. Pela manhã, quando chegaram as primeiras perguntas, a casa revivida ganhara outro texto - Não Se Vende - .
MF

Quando morre uma sereia 

Tão sublime, leve e transparente que ao toque se dilui no céu que a recolhe, certo deste acolhimento como de outro algum, jamais. Asas de pássaro viajante, migratório. Vôo singular, errante. Perspectiva única, elevada sobre o mar que ainda ampara o que perdeu. Criatura dessas águas, dessas conchas que enfeitavam e cobriam a nudez exigente. Ave e sereia, agora e antes, vida e morte, linha, traço comum, cheio, completo.
Sem pertences, alma apenas e ainda dividida no olhar perdido a este mundo conhecido e ao outro que descobre. Sem saudade porque cumprido o destino, apartou-se com o corpo abandonado, à vela dos choram porque ficam. Uma vaga que toca, alta, instantes o firmamento, devolve finalmente o que nunca foi seu. Que nunca é deste mundo, nem do mar, nem da terra o transitório. Efémero, férias de vida em estância balnear. Em tempo de morte, renova-se o mistério das perguntas a que sempre soubemos responder. No tempo de entrega do que por instantes partilhámos, fechamos, circular, as idades da sereia prometida.
MF


quarta-feira, junho 30, 2004

Chain blogging 

Em resposta ao apelo do barnabé, aqui fica:


o net pulha

Conforto 

Tinha parado para reflectir naquela estranha sensação de incómodo. Desde muito cedo que esta insegurança disfarçada lhe tolhia o espírito e os movimentos. Foi com um alívio extraordinário que abriu a porta de sua casa e se recostou no sofá. Ali, à mistura com um bizarro complexo de culpa, desejava ardentemente o regresso à rotina. Alguma versatilidade e cordialidade tinham sido cronologicamente responsáveis por este tipo de experiências. Quando se dava conta, estava perfeitamente integrada num qualquer grupo, com o qual, na realidade, não se identificava nem revia.
Agora, no conforto do seu espaço, descobria o ténue equilíbrio interior que lhe emprestava alguma monotonia. Pensou neste paradoxo, na sua necessidade constante de quebrar ritos, costumes e convenções e nas energias vitais que sugava ao conservadorismo acolhedor e morno. Esperavam de si algo que não era. Quando exausta das máscaras que envergava, se recolhia ao aprumo e à doce infantilidade de ser igual a si própria, meditava na explicação do seu rumo. A segurança forjada e falha de alguns relacionamentos, a euforia de alguns outros, a descoberta e aceitação da sua personalidade como realidade amadurecida da violência de alguns disfarces. Percebia em si os seus antepassados, os seus valores, as mulheres que lhe deram vida e reunidas em partículas faziam dela um todo mais ou menos coerente. Já não valia a pena ultrapassar-se, desejar de si o que nunca seria. Já não valia a pena procurar lá fora o que morava em si. Aceitava com serenidade esta fragilidade quase nunca demonstrada e, quase clarividente, a dependência afectiva com que esperava dos outros o amor eterno.
Com a felicidade do regresso, da costura dos retalhos do passado, adormeceu aninhada no colo das suas memórias.
MF

Distraídos 

Mais uma vez Net Pulha deixamos passar distraídos a comemoração dos 4.000 leitores.
Vê lá se aos 5.000 estás mais atento pá!
MF

terça-feira, junho 29, 2004

Alternativa gastronómica 

Passamos de cherne para uma sandes de coirato?
Não obrigado!

o net pulha

sexta-feira, junho 25, 2004

Bife à Portugália 


Desde ontem que ando com apetite de um belo bife à Portugália!
Vamos lá ver que pratos se seguem... Moussaka ou Escargots?
MF

quinta-feira, junho 24, 2004

Bater no ceguinho! 

E agora CC? Insistem em baralhar-te as previsões!
Estes 11 jogadores decidiarm todos conspirar contra ti!


o net pulha

Sexo, verdades e futebol 

Ele já lá estava, nariz colado ao écran. As nádegas avançadas do encosto do sofá, cotovelos apoiados sobre as coxas, língua de fora sobre o lábio superior e presa por entre os dentes. Ela demorara-se no quarto de banho, saíra de lingerie preta rendada, luvas altas, coco e bengala. Contornara a boca de lápis e baton vermelho a dizer com a rosa que prendera à alça.
Os jogadores entravam em campo, entre aplausos e vaias das claques coloridas, animadas. O apito soou. A televisão emudeceu. Estupefacto olhou para ela. Perna direita sobre a cadeira, bengala na mão esquerda, coco na cabeça, Joe Cocker, "you can leave your hat on", inacreditável.
Não, não sabia qual era o jogo. E ele sabia há quantos dias não faziam amor? Não, não podia esperar para logo. A cadeira tombava. Tirava-lhe o cinto. Sentava-se-lhe no colo, empurrava-o no sofá. Porque era uma "chatice"? Ouvia-se de novo o relato. Bolas, era golo. Só a repetição, quem marcou? Achava incrível ter pegado no comando. Sentia-se ridícula, magoada. Chorava na cozinha.
Foi golo querida, deixa-te disso, logo, mais logo compenso-te. Compensação, minutos de compensação, sempre a trampa do futebol. Ela é que se descompensava atirando o coco e a bengala no lixo. Apito final. Sempre ganharam. Abraçava-a. Agora não. Agora não queria. Vá alguém entender as mulheres. Os homens é que são umas bestas, insensíveis, grunhos. Mas que jogo era esse afinal? Portugal, querida, ganhámos. Portugal? Podias ter dito...
MF

Contágio 



Só para chatear o CC...

quarta-feira, junho 23, 2004

A outra 

Esculpira o corpo à semelhança do seu. Observando os detalhes pareciam-lhe perfeitos, a acentuada curvatura dorsal, o pescoço longo, os seios pequenos, molde exacto. Já havia horas que se prostrara em atenta observação quase à desfocagem e logo à fusão. Ao toque, a pedra fria quase reagia como viva por instantes. No colo, pendia uma "echárpe" de seda quase translúcida. Quando o vento soprava, adensava-se no ar o aroma a sândalo do seu perfume favorito, este era o toque derradeiro.
Virou-se e partiu.
À noite, junto à estátua, esta nota: "Querido, sei que não sentirás a diferença."
MF

terça-feira, junho 22, 2004

Vaidades 

Os Net Pulhas envaidecem-me!
Tem que haver alguém que equilibre as parvoeiras que para aqui digo!
Obrigado MF!

o net pulha

Adeus... 



E foram-se!
Quer o avançado do Benfica, quer o guarda-redes com nome de produto do Lidl!
É pena porque gosto muito da combinação do vermelho com o branco...
Mas uma coisa é certa, eles foram os seus piores inimigos!

o net pulha

Interrupção voluntária de gravidez 

Fora ao guarda vestidos de sua mãe. Tirara um vestido formal, branco com ramagens verdes e castanhas, convenientemente tapando os joelhos. Mudara os seus pertences para a pasta de executiva. Maquilhara os olhos e a cara e terminara colocando duas pérolas falsas uma em cada lóbulo da orelha. Equilibrava-se sem esforço nos saltos. O andar tricoteante soava-lhe firme no passeio.
Quando entrou no consultório quiz encarar a médica de frente, farseando o medo, a tristeza, os dezoito anos.
- Quantos dias minha querida?
- Mais ou menos quinze - respondera.
Engolira sem perguntas o comprimido que lhe davam. Deitara-se muda na marquesa. Relembrara letras inteiras de canções porque não queria rezar. Deus não a ouviria agora. Deus não ouviria, como ela, aquele barulho que soava dentro de si, à sua volta, por todo o lado. Foi ajudada por uma enfermeira que se levantou. Já estava.
Quando saiu, abateram-se as máscaras, na maquilhagem desfeita pelas lágrimas. Chamou um táxi.
- Para onde menina?
- Para longe...
MF

segunda-feira, junho 21, 2004

Ao adormecer 

O sono pesava-lhe nas pálpebras muito mais que a turbulência dos acontecimentos. Entregava-se ao amolecimento dos músculos e ao suave abandono que precede o adormecer. Deixara na cadeira, em aparente desalinho, a roupa que despira impregnada do tabaco que fumara excessivamente. Entrava no mundo a duas cores, a duas razões apenas. Adormecia consigo a suave sensação de liberdade mas também a da solidão que com ela caminha sobejas vezes de mãos dadas. Refazia mentalmente o passado. Alterava para o esquecimento os detalhes. O cheiro dos pinheiros matinais do caminho de regresso acreditava-lhe o dia, a existência. Não tinha sido aquela a mão que desejara e por isso a refutara de imediato, apesar da paisagem perfeita, do momento construído para ela, a dois. A perfeição arrasta consigo o conservadorismo dos conselhos de infância, dos filmes projectados de final feliz. Agradava-se, antes, dos pequenos contos surpreendentes, dos finais quantas vezes magoados na fuga dessa perfeição. Como perfeita, sentia a efervescência de alguns breves momentos ainda que iludidos de eternidade. A sua eternidade estava retalhada, por catalogar, em excertos de temas diversos entre promessas quebradas e fés abandonadas. Eterna, à data, só a fé no equilíbrio inconstante da compilação que um dia faria dos seus contos. Narraria nesse prólogo, breve intróito, o que ainda agora desconhecia. A chave, fio condutor que enlaçava definitivamente a sua razão. A lógica da vida, da história incompleta, na mesma suavidade com que se dava agora ao adormecer.
MF

A bola é redonda 


Então CC, continuas na tua?

o net pulha

sexta-feira, junho 18, 2004

Breve cena 

Levantava-se o pano.
Ela punha a sua música favorita, a que a fazia vibrar e olhar a vida de frente. Cerrava os punhos e engolia a dor. "Repeat", onde está o "repeat"? Não haveria lugar a mais repetições, só a dos acordes que prometera ouvir agora pela última vez. Abriu os olhos com força, fixou-os e respirou fundo. Não queria que as lágrimas a molhassem. Não queria sentir outra vez aquele sabor salgado. Não encontrava sentido nos seus dias, nem nas noites que passava a esquecer-se de si.
Amanhã, quando pela janela despontasse a luz, juraria um novo rumo.
Para já, adivinhava-se a saída do palco que se queria triunfal.
MF

Sem começo 

Era uma vez uma história que não começava assim. Abria-se à narrativa sem preparação, sem expectativa. Os personagens acordavam na acção, surpresos, sem referências. Enlaçados nos braços recíprocos procuravam-se, descobriam-se na história já começada.
Gestos nus, olhar vago, sabor de aflição, sem a roupagem invisível que os deveria cobrir. Aprendiam as falas de improviso. “Clichés” roubados de outros filmes, de outras histórias:
- Amo-te.
- Quero-te.
O realizador desesperava. Queixava-se dos actores. Os actores queixavam-se do argumentista. Este sabia o que escrevera. O que queria ver em cena. Era assim. Dois personagens catapultados para os braços um do outro, desconhecidos, nenhum passado, nenhum laço.
No cenário pardo misturavam-se os corpos dos actores em desespero.
Ele inspirado, colocava a voz. Já não importava o que dizia.
Ela vestira-se de outra mulher. Vestira-se de si.
Entreolharam-se ofendidos. De comum acordo, abandonaram a cena, dizem que à procura de um começo
MF

quinta-feira, junho 17, 2004

A xamuça voadora 

É com muito orgulho que comunico à blogosfera que Adam Juma Ferreira, também em círculos restritos já conhecido pela "xamuça voadora" foi o meritório vencedor masculino do "Circuito de Benjamins em Pavilhões do Algarve", realizado nos dias 29 e 30 de Maio, na Pista de Atletismo do Estádio Municipal de Quarteira.
Força Adam!!!
MF

Contabilidade 

Entrelaçava as palmas das mãos acariciando o vazio. Gesto repetido, tantas vezes, que lhe fazia parte do ser. A sua vida era uma longa conta corrente, exacta, precisa. Aproveitava as últimas folhas da velha sebenta escolar na qual, com rigor geométrico, traçara linhas longitudinais: Dever e Haver.
Na vida tudo se resumia a este saldo constante. Pelo final do dia, recolhia-se às contas. Tempo sério, demorado. Já assim vira o seu pai fazer. Sentava-se na cadeira, recuperada do contentor, e debruçava-se sobre a mesa. Contornava os números, minuciosamente desenhados, redondos, perfeitos, num realce sofrido que só ele compreendia os contornos de tal aritmética. Era aquela a sua biografia.
Ocupava o seu tempo em comparações numéricas, quem tinha, o que tinha, como tinha. A inveja instalara-se serena e pausadamente no seu corpo. Tomara-o como amante fiel e exigente. Prestava-lhe culto diário, procurando no Livro Sagrado a salvação para os pecados alheios.
Dos dias e das noites fugira-lhe o sentido. Da vida e da morte conhecia os algarismos. Entre os Salmos de louvor esperava conformado a ajuda divina, o Deus, reparador e presente, temível na ameaça da solidão.
O corpo juncara-se, seco de vida e amor. Como por veia cortada, escorrera-lhe a força da juventude, fluíram-lhe as energias, o suco, a cor. Pela noite, quando se deitava sozinho, ignorando os apelos do sexo viril, recordava naquela cama a companhia. Do desejo vinha a raiva contida, apaziguada pela masturbação frenética e pela certeza de que ao menos lhe ficara o colchão. Pago. A pronto!
Na casa, escura, sombria, ficaram os traços da sua passagem. Nas coisas, todas as que deixara levianamente para trás à sua partida, a marca, a história, daquela que ele só soubera perder. Nesse dia, não soubera que números desenhar na página diária. Contabilizara os pertences, os tarecos, as mobílias. Contabilizara os géneros que pouparia, as roupas, perfumes e brincos. Não soubera desenhar a sua perda. O cheque eterno prometido que ficara, assim, sem provisão.
MF

quarta-feira, junho 16, 2004

Solidariedade Bloguística 

Aqui, se dará acolhimento às missivas de João Mendes Cruz. Bem hajas CC pelo teu nobre gesto de solidariedade.
MF

Demasiada luz 

A manhã nascera luminosa, cheia de perfumes ainda frescos. Abrira a janela amplamente para deixar o sol espreitar, curioso, o seu quarto de dormir. Levaria com ele o peso da noite da mal dormida. De resto, não sabia o que fazer com tanta luz.
Não quebraria o silêncio com nenhuma música disparatada, nem o jejum com leite quente, não taparia a nudez com trapos. Deixava-se estar do jeito que acordara: vazia. Pouco lhe parecia adequado ao quadro de uma manhã assim, tão viva.
Talvez alguém lhe ligasse com força na voz e no trato. Talvez alguém a acordasse para aquela manhã. Esperou.
Debaixo do chuveiro pareceu-lhe ouvir o telefone. Correu, molhada, para o atender. Armanda.
Acabou o banho interrompido. Quem sabe o café... Vestiu-se contrariada. Vestido branco, vago, ausência de cor, para que a manhã se lhe pudesse colar no corpo. A outra já a esperava. Frases curtas, com planos de praia e sol. Despediu-se, desculpa qualquer.
Fechou a janela, correu as persianas. Forçou o sono para que o tempo passasse mais lesto. Sabia que o silêncio magoava a perfeição. Que o sono magoava a vida. Sabia que ela não acordara para tanta luz. Ofendia o sol fechando-lhe as portadas, deixando-se ficar, ausente.
-Tenho saudades tuas, meu amor...
MF

terça-feira, junho 15, 2004

O desaparecimento de João Mendes da Cruz 

Já lá vão alguns dias que um tal doutor L.V.S. se apossou do blog "dói-me", dando notícia do internamento de João Mendes da Cruz. Não posso ficar indiferente a este facto: primeiro porque sabe-se lá que métodos de persuasão terá o dito senhor utilizado para que o pobre João lhe desse a password do seu blog, segundo porque imagino o desespero da pobre Sara.
Queria manifestar aqui o meu constrangimento porquanto não mais pude saber notícias da sua saúde, o que muito me entristece e preocupa e apelar desde já a toda a blogosfera para que, caso saibam notícias deste amigo, por favor as comuniquem aqui no net-pulhas.
Caso o João tenha acesso à net, dê sinal de si!!!
MF

domingo, junho 13, 2004

A abstenção 

Ligeiro aumento da abstenção em relação aos resultados de 1999.
Motivo de reflexão, diz João de Deus Pinheiro. Sem dúvida, digo eu. Talvez por motivos diversos, suponho. É que, no meu modesto entender, quem quer mostrar cartões verdes, amarelos ou vermelhos que sejam, vai lá, dá-se ao trabalho, vota! Os outros, os da praia e do eterno desinteresse, vão lá para alimentar maiorias garantidas, calmarias e estabilidades. Esses votos fazem a diferença - a eterna diferença num país que nunca é nem de esquerda, nem de direita, num país em que poucos se comprometem!
MF

quarta-feira, junho 09, 2004

O Desamor de Josefina 

Nos braços de Josefina sentia-se seguro. Nunca lhe perguntara como era a vida na sua ausência, os medos que tinha nas noites solitárias, os sonhos construídos dos momentos que lhe dava, não, nunca lhe perguntara para lá do que queria saber.
O corpo de Josefina era porto seguro. Parava nele entre as marés dos dias, navegava entre as margens soltas que se abriam à vida, entre embarques e desembarques incertos. Ela, esperava-o como quem espera tudo. Da raiva contida mascarava amor desenfreado, do seu choro profuso unguento de orgasmo e ele, nem supunha diferente tão grande precipício.
Porta fechada, ainda os passos se distavam, Josefina soltava a dor em grito abafado, para dela não dar notícia à vizinhança.
Mulher boa - diziam à passagem firme e destacada pelos saltos aguçados. Anca laga, nariz de proa, patroa de si, do seu cheiro adocicado, dona do nada do seu mundo. Boa mulher, coisa diversa, mulher atenta, mão aberta, peito franco de acolhimento como poucos suspeitavam. Josefina, guerreira de fibra, que o orgulho a sustinha em momento de soçobra. Josefina, solitária, que nunca algum companheiro a levara ao mar alto.
Dela, falavam e deitavam adivinhas, muitos sabiam de coisa nenhuma, muitos a tinham de garganta sem puderem confessar alguma entrega.
Da Josefina que ficava atrás da porta, que chorava a liberdade sem temor, estranhavam os suspiros desgarrados, os olhos tristes perdidos nas águas do mesmo mar, no silêncio da embarcação ao sonho. Dela, sabia Josefina, do destino que às asas lhe falhava, venturas amordaçadas, devaneios, crenças poucas, crenças nenhumas.
Maior, muito maior que a pergunta nunca feita, a surpresa do seu não. Quando a porta se fechava sem regresso, sem mais gritos abafados, choravam-lhe o desamor repentino. Vindo do nada, motivo qualquer, mulher ingrata, mulher boa, boa mulher!
MF

Sousa Franco 

Depois de ter sido vítima de uma campanha sem escrúpulos, morre hoje Sousa Franco, para não mais saber das desgraças deste País.
MF

terça-feira, junho 08, 2004

Tempo de Espera 

Com as primeiras chuvas, vieram os primeiros cobradores. Foi inútil dizer-lhes que agora era o tempo de espera, o tempo em que a terra saciada daria, finalmente agradecida, os seus frutos. Levaram a carripana de ir à feira aos Domingos, as pratas da tia Micaela, as imagens sagradas cheias de resina pelas rezas e promessas alumiadas. Mas não levaram tudo, ficaram as paredes da casa, enfeitadas de quadros sem valor, os móveis toscos talhados em noites de Inverno, a cama grande de matrimónio, as enxergas dos miúdos, Asdrúbal, o burro velho, Casimira, a vaca leiteira, dois porcos cor de rosa, as galinhas poedeiras e, é claro, o Barrica, cão fiel já para mais de seis anos.
Foram-se como haviam chegado, sem palavras ou cortesia. Escolhiam e levavam numa apatia desinteressada, sem saberem as histórias de cada coisa, nem sequer as "manhas" do seu mister, a troco da paciência e do conhecimento que vem da muita convivência.
Ao jantar, sentados à volta da mesa sem preço, a família conferenciou, deu ideias, ofereceu coragens e promessas. Micas iria à feira a pé e voltaria sabe Deus como. Mas a vender o quê? Desânimos sucediam as esperanças.
À cabeceira, Juvenal estava calado. Não abrira a boca para sentenciar. Estava mais velho que ontem, quando caíra do céu a chuva milagreira. Pensava em todos, neles, nos animais, no Barrica que, deitado aos seus pés, também confiava no destino que ditasse. E que destino no seu sentenciar?
Foi no fim, quando já todos tinham nos olhos a tristeza, que Juvenal anunciou: Vamos vender promessas! Que era isso de vender promessas? Quando no Domingo Micas se fez ao caminho, Juvenal ia com ela. Sacos vazios, coração cheio e papéis muitos papéis enfeitados. Cada um tinha uma promessa, promessas de trigo e batata, de maçãs e rabanetes... Promessas do tempo em que a espera daria os frutos.
MF

domingo, junho 06, 2004

Pela vida 

É já antiga a celeuma acerca do verdadeiro papel do homem na terra: como escravo miserável, destinado à dor e ao sofrimento, veículos gratificantes e purificadores que o transportam ao merecimento divino ou, por outro lado, como um verdadeiro filho de Deus que, sendo Pai, dá amor, alegria e compreensão.
Porque já não somos alheios à utilidade da religião como instrumento político, de moldagem das pessoas ao fim último da sua própria utilização, estamos pois conscientes da importância que queremos e devemos dar a esta questão, nomeadamente no que se refere à nossa própria postura perante a vida, perante Deus e perante a dor.
Não nutrindo particular simpatia pela figura de um Deus castigador, que se aprecia dos sacrifícios humanos como forma de se amerciar da sua alma, não posso pois deixar de entender que, todos por cá vamos andando com a difícil missão de, apesar dos pesares, sermos felizes e procurarmos fazer os outros felizes. A verdade é que há poucas coisas tão egoístas como a maior parte dos pequenos sofrimentos que, impedindo o ser humano de olhar além do seu umbigo, apenas porque este lhe dói, o impedem de ver e sentir os sofrimento alheios. Quando o sofrimento é legítimo, o ser humano entende o sofrimento dos que o rodeiam e, não se fechando sobre si próprio, parte de mãos abertas a ajudar o outro.
Lembro ainda que, em 1994, após ter estado em Angola a ajudar num hospital perto de Luanda, todos os supostos problemas e sofrimentos dos que me rodeavam no regresso, me pareciam falsos e mesquinhos. Na verdade, encontrei uma força de vida inigualável em muitas crianças estropiadas que, sem qualquer motivo para sorrirem, eram uma ode à vida e à coragem.
Hoje, causticada por alguns próprios sofrimentos e recordações, tornei-me ainda menos sensível a algumas "dores" , para poder ser sensível a outras... Que me perdoem os que sabem do que falo mas a Vida corre, está aí, e eu quero aproveitá-la!
MF

quinta-feira, junho 03, 2004

Rapunzel 

Rapunzel vivia à janela debruçada. Lembrava, de miúda, uma história contada sobre um príncipe garboso,sensível a estes costumes de assim janelar. Dia após dia, sempre debruçada, já ganhara peles sobrepostas nos cotovelos e um jeito curvo de arredondar as costas para melhor se acercar das novidades. Adivinhava o seu príncipe em cada vulto masculino que passava, logo puxando os fru-frus da blusinha para realce dos seus seios e fazendo aos lábios um pequeno beicinho.
Vista de baixo, Rapunzel ainda mantinha alguns atractivos: longos cabelos entrançados, um razoável trinta e oito de busto e um olhar supostamente profundo da disfarçada miopia, mas era esta a sua melhor perspectiva, a de quem passava pela rua certo do seu reparo, da sua eterna presença.
Pela manhã, logo após as abluções matinais, Rapunzel prostrava-se à janela, abrindo os cortinados já comidos na cor. Breves intervalos afastavam Rapunzel da janela, o telefone que tocava, a campaínha a avisar do carteiro, ou as breves e frugais refeições que preparava. Todo o santo tempo que sobrava, ela passava-o debruçada, adivinhando o seu príncipe em homens diversos. Se lhe calhava um piropo brejeiro, sorria atrevida, em convite mudo ao cavalheiro. Nestes anos, muitos se haviam afoitado pela escada, roubando Rapunzel à vigília da janela.
Nesses momentos, em que Rapunzel servia os visitantes, sem gemidos ou prazer, esperava, esperava que lhe dissessem: Rapunzel, solte as suas tranças... Com as tranças intocadas, tristemente à janela debruçada, voltava a acreditar que um dia, seria assim que ele se lhe chegava.
MF

terça-feira, junho 01, 2004

Net Pulha 

Desculpa, Pulha, mas não posso deixar em claro esse teu post.
Qual era a dúvida sobre a existência de verdadeiros social-democratas?
Não vamos entrar por aí colega, pois não?
MF

Porque espera? 

Não creio nessa espera revoltada,
que o fim é também um recomeço,
Se a vida dói mais do que a morte.

Não lamento, portanto, essa sorte,
ou sequer por ela esmoreço,
se quem espera o faz inutilmente.

Não se abre a janela ao passado,
podendo reabri-la ao presente
MF

segunda-feira, maio 31, 2004

Tia 

Quando prolonguei a fase pré-matrimonial quase até à meia-idade, muitos me diziam: Olhe que a menina ainda fica para tia! Nunca percebi qual seria o inconveniente de "ficar para tia". Na verdade, o ser tia, traz consigo inúmeras vantagens, as tias são sempre bem vindas, aturam os sobrinhos enquanto lhes apetece e podem e, quando não, vão à sua vida porque são tias e apenas tias. De resto, o ser tia, é ainda hoje sinónimo de um certo "chique" associado às linhas ferroviárias litorais.
As tias podem ser "fixes", "baris" e as mães não! As mães são eternamente chatas. Pior que mães, todos sabemos, só as mães dos gajos com que se case e que recebem o bonito e eterno epíteto de "sogras".
Em caso de divórcio, dissolução do vínculo contratual matrimonial, não há qualquer hipótese de, por acordo ou sentença, nos vermos livres da "sogra", sem o recurso a métodos mais drásticos e criminalmente condenáveis. Ora, também este, é mais um poderoso argumento favorável à manutenção do estatuto de tia.
Nesta sequência lógica, sempre defendi com entusiasmo não só o ser tia como que o homem perfeito seria um ser de geração espontânea, ou seja, sem uma querida mamã associada. A vida ensina-nos muita coisa. Ensinou-me por exemplo que esta história de ser mãe é de facto tão chata quanto previa, pois habituamo-nos a ouvir da boca dos nossos filhos que somos umas chatas, e ensinou-me que o homem perfeito, quando não traz uma mãe associada traz uma tia, o que é igualmente chato!!!
MF

Raridade 

Afinal ainda há sociais-democratas, na verdadeira acepção da palavra!
Como o teu blog não tem espaço de comentários aqui fica o meu aceno de cabeça afirmativo e concordante.

o net pulha

Feira do Livro 

Desloquei-me à feira do livro com o intuito de, a pedido da minha mãe, encontrar a cartilha maternal já que ela está determinada a ensinar a ler a jovem rapariga que comigo partilha a casa. Como não consegui encontrar a dita cartilha, acabei por trazer um livro antigo da primeira-classe, da altura em que julgavam que as crianças conseguiam aprender pelo esforço, inteligência e memória e não pelos aforismos dramáticos e associações livres com os quais actualmente se brindam as criancinhas. Pasmei com os seus conteúdos densos e com as páginas que transmitem doses maciças de alfabetização. Pior ainda, naquele livro não existe um único exercício do género: Faz uma roda com os teus amiguinhos e discute a importância de aprender a ler!
Preocupa-me esta questão pois creio que, com aquele método desactualizado da minha mãe, a referida aprendiz consiga muito em breve decifrar as gordas do Correio da Manhã...
Não fora uma confusão qualquer para as bandas do stand da Almedina e a falta de dinheiro na carteira e teria carregado para casa mais algumas obras, mais que não seja, na esperança do tempo em que vou ter mais tempo!
MF

quinta-feira, maio 27, 2004

As comadres 

Acocoradas na soleira da porta, miúdas de corpo pelos anos perdidos, ritualizavam as manhãs no afã linguístico. Muitos achavam o quadro pitoresco. Até turistas já as haviam fotografado, naquele jeito encolhido, sob a parca sombra do telheiro. Outros, fugiam delas como diabo da cruz, chamavam-lhes bruxas quase em sussurro enquanto, à cautela, se benziam.
Esmiuçavam-se as vidas alheias naquelas manhãs. Dissecavam-se mexericos como quem disseca corpos em marquesa de autópsia. Num disfarce milenar de preocupação, envenenavam a terra com as suas farpas. Administravam assim o destino dos outros, amargando-o, carregando-o com o fel que lhes brotava nas palavras. Muitos se lhes chegavam com a insana vontade de se lhes juntar. Lá rezava o provérbio: "quando não podes com eles..." - pensavam que assim lhes escapariam ao comentário, à má vontade... Estas eram as piores figuras. Os "cata-vento", que soçobravam à feição das brizas, patetas-alegres com o pézinho na fronteira entre Grécia e Tróia.
Do seu posto teciam vidas, profetizavam desgraças, alegravam-se com as tragédias adivinhadas, e rezavam, rezavam muito para nunca cairem em tentação.
Não cai em tentação quem não é humano e essa é a pior desgraça. Não cai em tentação que não é tentador e essa é a pior certeza que se alberga no peito de quem odeia porque se odeia. Não cai em tentação quem não vive e passa pelos dias de forma impávida. Esta é a cruz que carregam as comadres!
MF

quarta-feira, maio 26, 2004

Mais um nos Fundamentais. 

Em reunião magna dos Net Pulhas, foi decidido por unanimidade fazer um link permanente ao Doi-me +. Segue-se uma salva de palmas de aclamação de toda a Assembleia Geral Extraordinária dos Net Pulhas:
(clap, clap, clap, clap, clap)

os net pulhas

terça-feira, maio 25, 2004

Doença 

Não resisto em comentar aqui a minha última doença:
Visitar diariamente este blog.
Quando se acha que João e Sara já não podem trazer mais nada de novo, estamos enganados!
Fantástico, simplesmente fantástico!
MF

segunda-feira, maio 24, 2004

O meu pé direito 

Um pé tem variadas e nobres funções. Qualquer que seja seu formato, mais ou menos elegante, "minhone" ou enorme, um pé é sempre digno de reparo.
Tecem-se os mais diversos reparos aos pés dos amantes: Tens pés de Apolo - dirá uma qualquer mulher apaixonada, à falta de algo mais original ou positivo para dizer...
Recordo,a propósito, um antigo colega que tinha fetiche por pés pequenos. Cenas hilariantes com ele à janela do metro nos Restauradores fingindo que queria sair pelo vidro enquanto eu, no cais,descalçava o sapatito e exibia o meu pé 35, ante a estupefecção dos transeuntes.
Este tema, dos pés, tem vindo a ser abordado ao longo da produção artística mais variada: "O meu pé esquerdo", o pé boto de "Servidão Humana" de Somerset Maugham, o pé descalço de Leanor rumo à fonte,"A princesa pé de cabra", todos eles, pés de utilidades e inspirações diferenciadas.
Hoje dei por mim a pensar sobre pés e expressões curiosas: "Entra com o pé direito"; "ainda estás a pé?";"aqui à pé"; "em que pé está o assunto?"; "pé ante pé"; "com um pé atrás"; "pézinhos de lã"; "pés de barro"; "és um pé frio!".
O que nunca pensei foi perder o sapato debaixo da mesa do restaurante enquanto me debruçava sobre este assunto... Merda das "moules"!
Esqueci-me, recordo com saudade "O meu pé de laranja lima"!
MF

Alergia 

Jacinta espirrou, espirrou mesmo. Atchim!!! Um daqueles espirros que levam formigas à frente. Está com alergia a coitada. Fez análises, testes alérgicos e nada, mesmo nada de conclusivo. Fez limpeza, inspecção à barraca e até mandou que lhe tirassem o pó. Conseguiu perder o dinheiro da sua venda ou a apreensão pelos costumes.
Agora, sem o pó do seu sustento, nem dinheiro para o anti-histamínico lhe resta. Procurou no avental umas moedas, varreu o chão da cozinha e deu de caras com um tostão.
Feita carochinha, quiz comprar fitas para se enfeitar que o tostão não dava para o atarax. Merda! Um tostão já nem fitas compra. Nem no mercado da sua cor aceitavam trocas por tostão. Ainda se fosse um euro... De mal com a vida, refilava contra tudo entre os espasmos alérgicos. Na passadeira ia sendo atropelada por uma condutora distraída. Acenou-lhe com o dedo erguido e mandou-a ir ter com a mãe. A senhora agradecida, abriu a janela e pôs-lhe dois euros na mão, após o difícil estacionamento do veículo no local que o dedo médio e erguido de Jacinta apontara.
Ele há milagres. Foi com um sorriso desdentado que Jacinta foi à farmácia aviar a receita. Ainda vale a pena refilar!
MF

sexta-feira, maio 21, 2004

Palavra (des) armada  

Refasteladas no semi-círculo as crianças nem escutavam as palavras do mestre. O sol já se punha e os chapéus, inúteis, nas cabeças, em perspectiva mais real, pareciam chapéus. Assim sentadas, desordenada e ruidosamente, quase se lamentava a pobre missão do ensino. Actual, o cenário, era facilmente datável, pelas T. Shirt´s de marcas rascas.
Agradava-me pensar nesta contradição, na desilusão da aprendizagem, nas palavras perdidas pelos pequenos ouvintes. Nunca poderia ser Sócrates ou o nosso professor primário, porque os séculos não se misturam, só se confundem pela má passagem do testemunho. Desmaterializa-se o Homem, o passado, valores, história, fés e conhecimento sempre pela palavra. Como se desmaterializam em nós os verdadeiros mestres, aqueles que por razões diversas nada fizeram para que nós fossemos melhores ou piores pessoas.
A palavra, sobejas vezes entendida como inútil, ecoava primeiro e dispersava-se depois sem efeitos. A cada chapéu sua sentença, a cada cabeça seu desentendimento e falta de discernimento.
Ainda pensei que continua a palavra sem fazer a verdadeira revolução... É que chapéus há muitos e cabeças não !!!
MF

Palavra armada 

Sentadas em semi-círculo as crianças escutavam atentas as palavras do mestre. O sol já ia alto e os chapéus nas cabeças, em perspectiva mais ampla, pareciam girassóis. Assim sentadas, ordenada e silenciosamente, quase se invejava a nobre missão do ensino. Intemporal, o cenário, dificilmente seria datável, não fossem as T. Shirt´s de marcas recentes.
Agradava-me pensar nesta tradição, na comunhão da aprendizagem, pelas palavras sorvidas pelos pequenos ouvintes. Poderia ser Sócrates ou o nosso professor primário, os séculos misturavam-se, confundiam-se, na passagem do testemunho. Eterniza-se o Homem, o passado, valores, história, fés e conhecimento sempre pela palavra.Como se eternizam em nós os verdadeiros mestres, aqueles que por razões diversas fizeram de nós melhores ou piores pessoas.
A palavra, sobejas vezes entendida como arma, ecoava primeiro e dispersava-se depois nos seus efeitos. A cada chapéu de girassol sua sentença, a cada cabeça seu entendimento e discernimento.
Ainda pensei que continua esta arma a ser a verdadeira revolução...É que chapéus há muitos!!!
MF

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